Carlos Leite
As guirlandas nas portas e as árvores de plástico enfeitadas nas casas anunciavam a chegada do natal, o momento em que pessoas de todas as idades voltavam a acreditar em magia e contos de fada, exceto Gomes, para ele o natal não tinha nada de mágico fora a grana que o ajudaria a passar o mês, era só uma época em que pessoas gastavam tudo o que tinham para agradar gente que despreza, até mesmo as crianças estavam contaminadas, sentando no colo de um estranho para pedir presentes.
"Todos fúteis", repetiu a si mesmo enquanto olhava no espelho treinando o sorriso amigável, a máscara que deveria vestir. Enquanto a fantasia quente que deveria vestir por um dia inteiro cobria as suas tatuagens, marcas de uma vida desperdiçada.
Assim que seu companheiro anão bateu em sua porta, a dupla seguiu até a imensa árvore no centro do shopping, Gomes sentou na cadeira dourada com estofado vermelho com a fila infantil já aguardando, iniciando a sessão de reclamações e pedidos de itens que ele sabia que seriam descartados e esquecidos pelos frívolos corações. Horas a fio ouvindo "O maior sonho da minha vida é ganhar um play foda-se quinze." e tendo que repreender os pestinhas que tentavam bater no anão, ou melhor, “o duende mágico”. A véspera de Natal prometia ser tão tediosa e estressante quanto sempre.
Gomes pensou em sair mais cedo e ir dormir embriagado em algum lugar, mas o supervisor já estava em sua cola, vigiando e fazendo anotações na prancheta como ameaça, então teve que prosseguir com a fila respondendo de forma genérica com a mente fixada no relógio até ser surpreendido por um garoto incomum.
O pequeno estava pacientemente na fila, estranhamente quieto, assustado, Gomes logo pôs seus olhos sobre ele e foi capaz de notar o quanto se parecia com seu filho quando tinha aquela idade, os dentes do pequeno mordiscavam os lábios no esforço de segurar as palavras e assim que sentou em seu colo não demonstrou a costumeira alegria infantil.
— Olá, meu pequeno amigo, qual o seu nome? — Gomes reuniu suas últimas forças para manter a postura amigável e alegre.
— Miguel. — respondeu o garoto acanhado.
— Olá, Miguel, o que deseja de Natal, um carrinho talvez? — Gomes estranhou que Miguel não respondia como as outras crianças, estava estranhamente acanhado e cabisbaixo.
— Você é mesmo, papai Noel? — disse o garoto, olhando para as mãos mexendo os polegares.
— Claro! — Gomes respondeu mais alegre, mas o pequeno não reagia.
— E pode realizar qualquer pedido?
— Depende, você foi um bom garoto? Tirou boas notas? Tratou a todos com educação e respeitou seus professores e seus pais? — Miguel o intrigava, disse olhando nos olhos do garoto que desviava o olhar.
— Sim, mas acho que não fui um bom garoto...
— Se fez tudo o que perguntei, por que não seria?
— Se eu fosse um bom garoto meu pai ficaria em casa... — Gomes foi surpreendido por um abraço do garoto que se aproximou de seu ouvido e sussurrou como quem contava um segredo de morte. — Pode fazer isto Papai Noel? Pode me tornar um bom garoto ou falar com a dona cegonha e dar para meu papai o filho que ele quer? Aí ele poderia ser feliz e passar a véspera de natal em casa ao invés do Bar do João? — Gomes foi fulminado pela pergunta, tudo ao redor estava abafado enquanto olhava nos olhos castanhos e cheios de água, já vira aquele olhar antes, perdido e cheio de culpa, há muitos anos atrás quando encarou seu filho pelo vidro de trás da viatura. Nada podia fazer, não tinha coragem de dizer aquele garoto o que precisava, sentia a sua admiração, "Desculpe filho, mas seu pai é um bêbado", era demais, não poderia fazer isto, mas a criança precisava de uma resposta.Viu o supervisor olhando o relógio.
— Seu pai não precisa de um filho novo, garoto, tome aqui um caminhãozinho. Vá brincar e logo tudo ficará bem. — disse com um sorriso, mas sabia que os jovens olhos viam por trás de sua mentira.
— Tudo bem... Obrigado, Papai Noel. — Gomes pôde sentir a decepção daquele olhar vazio, provavelmente acabara de matar o Natal para aquele coraçãozinho, tentou arrancar um sorriso com um vergonhoso, "Ho,ho,ho Feliz Natal!", mas já era tarde.
O restante da fila passou de forma monótona e automática, na última criança não fez questão de perguntar o nome. Mecanicamente arrumou o cenário, pegou a grana e subiu ao vestiário, estava inquieto e não sabia por quê. Gomes tirou parte da fantasia, acendeu um cigarro e abriu a pequena garrafa de whisky, brindou ao seu reflexo por mais uma maravilhosa véspera de Natal e vertia grandes goles da bebida forte enquanto encarava uma fotografia antiga presa no espelho, um garotinho em suas costas.
Meia garrafa depois a experiência com o garoto ainda não saia de sua cabeça, algo cutucava sua nuca como um alfinete, tentou evitar os pensamentos olhando para o copo, mas as tatuagens logo foram notadas, várias pelo braço, algumas pela estética distraindo aquelas feitas na prisão, cada uma com sua história, cada história com sua dor.
— Aquele pobre diabo nem sabe o que está perdendo... — refletiu sobre o pai do garoto, reconhecia aquela história, de ver nos inocentes olhos do filho um olhar de quase devoção sendo consumidos pela tristeza, se tornando olhos de culpa, pois te colocaram em um pedestal tão grande que preferem se culpar pelas merdas de um pai torto. — Você é profissional nisso, não é mesmo, Gomes? — encarou o espelho e suas rugas, havia perdido muito de sua vida pagando pelas escolhas erradas, sua juventude, seu casamento, mas ainda tinha o seu filho, ainda tinha aquele pequeno feixe de esperança de que não era um completo lixo, então eles fazem dezoito e vão te visitar pela última vez, mostrar que os olhos de culpa agora são olhos de raiva, te encarando com uma fúria assassina, pois de fato te mataram em seu coração. Estão lá, silenciosos, apenas para mostrar o que perdeu e que nunca vai recuperar. Gomes mal pôde continuar se encarando e socou o espelho, já estava bêbado e sua cabeça confusa, tentava pensar em qualquer outra coisa, mas só aquele garoto vinha em sua mente, chorando.
“Eu poderia falar com ele... Impossível, só posso estar louco…”, Talvez houvesse uma chance de salvar aquele coração, fazer algo certo pelo menos uma vez em sua vida, e se conseguisse, poderia esse ser o sinal de que suas próprias merdas pudessem ser resolvidas. Refletindo voltou a vestir a calça, o casaco e quando deu por si estava todo vestido seguindo em direção a porta, apenas sendo impedido pelo supervisor que apenas queria saber para onde Gomes estava levando a fantasia do shopping, não obteve resposta, insistiu de forma mais incisiva, ameaçando dificultar as coisas em relação à sua condicional, um soco respondeu às ameaças.
— Escuta aqui, Adélio, você é um cuzão! Sempre foi e eu apenas fingia te aturar por causa da grana e da porcaria da minha condicional, mas hoje, só hoje eu sinto que posso fazer algo decente. Se você quiser me demitir ou me denunciar, ótimo, mas amanhã! Hoje eu vou devolver um pai a um garotinho e nem você e nem ninguém vai poder me impedir disso, ouviu bem? — Gomes não esperou a resposta, apenas seguiu seu caminho certo de que se arrependeria daquelas palavras no outro dia.
. . .
O boteco estaria às moscas se não fosse pela presença dos bêbado fiéis, o rádio emitia o maçante falatório do locutor antecipando as felicitações de natal com um fundo musical apropriado, mas para aqueles ouvintes não havia natal ou ano novo, apenas mais um dia largados ao vício sendo buscados pelos parentes, numa mesa mais ao canto, Marcelo tomava uma pinga barata e já sentia os efeitos ébrios do álcool, mas principalmente o alívio da tremedeira. Sentia que havia algum compromisso para a noite, mas este se esvaiu-se da mente a cada gole que deixava seu corpo dormente e letárgico. Dessa forma facilitava a fuga e o distanciamento conforme afogava as preocupações e tornava o mundo ao seu redor mais vagaroso, lembrou de ver um garotinho mais cedo aos prantos a sua frente, chamando-o, mas já estava mergulhado demais para se importar, então o viu partir correndo antes de pedir mais uma dose.
A quietude foi quebrada com a entrada de cinco pessoas, cinco homens mal encarados sendo liderados por um chefe que estava com um palito na boca e óculos escuros, o chefe se aproximou da mesa de Marcelo segurando um copo de cerveja que verteu todo o líquido antes de começar a falar.
— Eaew, Marcelo, tá de sacanagem com a minha cara, só pode. — Ele tinha um sorriso sacana e um jeito de falar agressivo.
— Não entendi, Lagarto... — Marcelo sentiu sua espinha congelar.
— Tá aqui na boa, tomando uma e me devendo dinheiro? Cadê minha grana, porra! — Lagarto jogou o copo no chão, raivoso.
— Desculpa, lagarto, mas eu estou sem dinheiro. — Marcelo tentou se justificar e Lagarto respondeu jogando a mesa para o lado, logo os capangas o apertaram na parede. — Eu vou te pagar... Só não tenho a grana agora... — Tentou argumentar, sentia a sua vida por um fio.
— Você não entendeu, imbecil, você vai me pagar hoje de um jeito ou de outro. — Lagarto sacou a faca do bolso e passeou a lâmina no rosto de Marcelo descendo até a garganta.
— Eu tenho um filho, lagarto, ele pode trabalhar para...
— Larga ele. — Uma voz rouca e furiosa interrompeu o bêbado, anunciando o homem alto e gordo vestido de papai Noel, os bandidos se voltaram para o velho e começaram a rir, fazendo chacota da fantasia, ele ouviu as ofensas calado, apenas apertou os punhos e disse:
— Escuta aqui, moleque, eu mandei soltar esse cara ou eu vou quebrar vocês na porrada! — O grito irritou os bandidos, o mais alto dos cinco se aproximou após quebrar uma garrafa e apontar a arma improvisada ainda escorrendo cerveja.
— Você está muito longe do shopping... — O homem foi interrompido com um soco na boca seguido de um chute no meio das pernas, ele caiu no chão gritando de dor e os outros três partiram para o ataque.
A luta foi feia, apesar de conseguir acertar alguns golpes, os três mais jovens e violentos acertavam socos e pontapés dolorosos, Gomes estava acuado e se defendendo como podia, mas sempre havia uma área exposta, e com mais um chute foi levado ao chão, tossiu sangue enquanto era alvo de mais golpes e ofensas, achou que iria desmaiar de dor, mas a face do garoto estava marcada em sua cabeça, não poderia deixar que o mesmo erro que tirou seu filho ocorresse novamente. Dormente de dor pegou a garrafa quebrada e cortou fundo a panturrilha de um dos bandidos, afastando-o, e repeliu os outros com golpes abertos permitindo que pudesse se levantar.
— Vamos, venham dançar... — Provocou Gomes.
— Esse velho é maluco, Jorge! — disse um dos bandidos, ofegante.
— Vamos acabar com ele, agora! — Jorge avançou num soco pesado, Gomes defendeu com o braço direito e, com o esquerdo, enfiou a garrafa na garganta, o rapaz foi ao chão se afogando com o próprio sangue.
— Agora você vai morrer, velhote! — o mais jovem dos dois restantes sacou um revólver 22.
— Passa ele, Mateuzinho! — instigou o mais velho de cabelo oxigenado. Gomes olhou nos olhos do garoto e levantou as mãos, via medo e confusão no olhar, não devia ter matado ninguém ainda.
— Garoto, sei que está com medo, mas não faça uma besteira, se apertar esse gatilho não tem volta, vai pra casa. — a voz foi calma, tentava racionalizar com o rapaz armado, ele via o cano da arma tremer e isso nunca era bom sinal, mas então a feição do garoto ficou mais tranquila, as palavras deram certo.
— Larga de ser covarde! — o outro rapaz, percebendo a reação, tomou a arma e mirou em Gomes, "Cesar, não!", Mateuzinho gritou, mas mãos firmes e decididas seguraram o revólver, dedos assassinos apertaram o gatilho. A arma que cuspiu três balas que encontraram a carne de Gomes que ainda foi capaz de quebrar o maxilar do mais velho com um soco, tudo muito rápido para os olhos do mais jovem que apenas viu o clarão dos tiros e César no chão com as mãos do Papai Noel apertando seu pescoço, pensou em lutar, mas seu sangue gelado pelo medo escolheu correr.
Lagarto observou espantado enquanto seu companheiro se debatia no chão até ficar inerte e frio, apertou a sua faca quando foi fulminado pelo olhar furioso daquele homem ensanguentado e todo ferrado, sua mente não compreendia.
— Por que? Você é maluco? Esse cara é só um bêbado acabado! — gritou para o homem vindo em sua direção.
— Não viu o calendário, imbecil? Hoje é véspera de natal e um garotinho fez um pedido. — Gomes estava muito ferido, contando apenas com sua raiva para mantê-lo de pé.
— Então morra! — Lagarto gritou e violentamente atacou com sua faca, mas Gomes conseguiu interceptar a estocada segurando o pulso para então revidar com um poderoso soco no queixo que não o derrubou, mas deixou tonto, Gomes aproveitou a situação e se jogou na direção do Lagarto, levando-o ao chão violentamente, e desferiu uma série de socos pesados. Naquele momento se permitiu descarregar a sua fúria, a raiva dos anos preso, da decepção de seu filho, da dor de não vê-lo crescer, de não poder se despedir por causa de armadilhas feitas por pessoas como o Lagarto que engordam das fraquezas das pessoas como vermes se fartam de uma ferida aberta.
Gomes não soube por quanto tempo socou, o fez até se sentir satisfeito, até não reconhecer naquele maldito uma face humana, com dificuldade se levantou e segurando o gemido de dor andou até o Marcelo que estava encolhido num canto, "Vem comigo, seu merda!", Gomes o segurou pela camisa e o arrastou para fora daquele boteco.
— Por favor, não me mate, eu não sei quem é o senhor, mas pagarei o que devo... — Marcelo de joelhos uniu as mãos em prece.
— Escuta aqui, você não sabe a sorte que tem, um filho ótimo que merece um pai decente está lá sozinho no mundo, largado, e apesar de ter todos os motivos para te odiar insiste que o problema seja ele, que não esteja sendo bom suficiente... Já passou da hora de você tomar um jeito antes que ele cresça e seja tarde, você está ensinando a apagar você e a todos, a deixar os sentimentos morrerem e virar alguém amargo e cruel. E quando você perceber ele vai te olhar como se já estivesse morto e estará velho e sozinho exceto pelos próprios demônios e arrependimentos! — Gomes cuspiu palavras duras para Marcelo como se desse um corretivo a si mesmo num passado distante, Marcelo apenas pôde se encolher frente aquele homem.
— Pode deixar, senhor, eu vou tomar jeito...
— Eu sei... — disse Gomes segurando o homem pelo colarinho. — ... Porque se você vacilar de novo eu vou te encontrar e você não vai querer isso. Outra coisa, esqueça que um dia você cogitou usar seu filho para se safar, entendeu? Agora vamos. — continuou ajudando Marcelo a limpar um pouco da sujeira na roupa.
— Vamos?
— Claro, um garotinho pediu o pai no jantar de Natal e vou garantir isso.
. . .
Meia noite, Gomes acompanhou Marcelo até em casa, o viu abraçar o filho e, apesar do corpo tomado por dor, pôde dar um sutil adeus ao garoto pela janela antes de caminhar e sumir em meio à multidão. Oculto em algum beco ele se arrastava escorando nas paredes gemendo as dores que tomavam o seu corpo, a roupa vermelha escondia o sangramento causado pelos tiros de raspão, mas não a fraqueza de perder tanto sangue. Questionou a sanidade de ter enfrentado aqueles bandidos no bar para morrer num beco imundo, valeu a pena? O sorriso de um garotinho qualquer dentre milhões nesse mundo bastou? Para si deveria, para uma vida gasta em escolhas de merda e desapontamentos seria mais do que nobre saber que aquele garoto não terá o mesmo fim de Gustavo, e isso já bastaria para este velho morrer em paz.
— Feliz natal, garoto. — disse Gomes seguindo pelo beco com passos lentos e pesados adentrando a escuridão, cada passo aumentava a incerteza de sua noite. Pela primeira vez, em muito tempo, ele torcia pela manhã de natal, enquanto deixava para trás pegadas de sangue.