Por Carlos Leite
“(...) Ainda sem notícias do mecanoide modelo SE800, trazido após cliente relatar um ‘comportamento incomum’. Os resultados preliminares indicam uma inconsistência em suas sinapses positrônicas. Ainda que seja uma remota possibilidade, se faz necessário a realização de uma avaliação mais profunda para um diagnóstico mais preciso se houve ou não algum comprometimento das três leis.
Recomenda-se então, após a localização do ativo, proceder com o mapeamento geral com devido registro para análise, seguido de total desmontagem, manutenção de peças, substituição do cérebro positrônico e total incineração do antigo.”
Isaac & Shelley, manutenção de mecanoides LTDA. – Fragmento de relatório.
“É comovente e louvável as intenções destes ativistas pró-mecanoides, mas digo como profissional, é um movimento nascido de uma má interpretação. Os mecanoides são emulações humanas. Bem convincentes, mas ainda são meras emulações, qualquer tentativa de atribuir qualquer característica humana a estas máquinas é singrar em uma perigosa ilusão. Quanto antes perceberem isso, poderão direcionar suas energias para temas mais construtivos.”
Dr. Philip W. Gibson - Em entrevista com a revista Eons.
Em uma lanchonete no centro de Neóproles um jovem esbravejava contra um robô atendente enquanto atirava contra ele seu refrigerante. Inutilmente, o mecanoide tentava explicar que era exatamente o sabor escolhido pelo jovem, que apenas deu um soco e saiu correndo. Na praça logo à frente, observando, estava um homem de quarenta anos. Caio estava sentado no banco, tentando por um momento esquecer todo o caos que havia se instalado no escritório enquanto era absorvido por toda aquela situação.
— E imaginar que já pensamos que essas coisas iriam nos dominar, ridículo — disse alto para chamar a atenção do senhor, de cabelos grisalhos, sentado no banco ao lado lendo um jornal. — Logo ele vai esquecer e servir o garoto como se nada tivesse acontecido. — Continuou.
— Na verdade, não, ele é um AT2099. — Respondeu trivialmente o senhor.
— Não entendi. — Caio fez sinal para que o senhor se sentasse ao seu lado, ele o fez calmamente, e começou com um tom professoral.
— Com a popularização dos cérebros positrônicos, os atendentes possuem um desde o modelo AT1000. — O senhor observou a feição curiosa de Caio e continuou. — Diferente dos cérebros humanos, os positrônicos guardam em registro fiel os eventos. Palavra por palavra, frame por frame. Por esta razão, mecanoides são testemunhas confiáveis. Eles não adicionam um filtro emocional, não se perdem com o tempo... você amanhã pode nem se lembrar mais desse evento, ou achar que foi mais engraçado ou desagradável do que realmente foi, contudo, daqui a trinta anos, aquele AT2099 ainda se lembrará vividamente de cada detalhe, cada ofensa, enquanto estiver servindo o jovem como se nada tivesse acontecido.
— Porque ele é compelido pela segunda lei a obedecer! — Lembrou Caio.
— Isso. A segunda lei o compele. — O senhor falava de forma clara, como quem pesava cada palavra.
— O Senhor sabe bastante, é cientista? — Caio perguntou e o senhor dobrou o seu jornal.
— Tenho alguma experiência no assunto. Não sou cientista, mas conheço algumas histórias e histórias ensinam bastante.
— Poderia me contar alguma? — Caio estava curioso, não era todo dia que encontrava alguém da área da robótica.
— Soube uma vez de um mecanoide serviçal que sofreu maus bocados na mão de um jovem até ser revendido pela família. Os anos se passaram e eles se encontraram novamente, como estranhos. O jovem, já maduro, não se lembrou do serviçal enquanto o mecanoide revivia cada momento. — O senhor contou enquanto observava o atendente servindo um sorvete a uma garotinha que o agradeceu, apesar da pressa da mãe. Caio ficou refletindo por alguns segundos antes de perguntar.
— E o que o robô fez?
— Nada. Cumprimentou-o, como se faz com qualquer humano, e seguiu seu caminho. Ele não tinha outra escolha.
— A primeira lei. Ele não pode ferir nenhum humano. — Caio mais uma vez lembrou-se, mas isto pareceu mais abrir as suas questões do que saná-las.
— Interessante, por que pensou justamente na primeira lei? — O senhor deu um olhar provocador como se esperasse alguma adição ou pergunta.
— Pensei no que faria no lugar desse robô. Imagina lembrar de tudo e não poder fazer nada? Eu teria feito ele se lembrar de mim — disse Caio, o senhor observou que ele apertava o punho direito.
— Então digamos que, num cenário hipotético, o mecanoide tivesse encontrado uma forma de suprimir a primeira lei. Acha que ele não teria uma atitude diferente de você? Não acha, por exemplo, que, ao invés de vingança, ele não possa também expressar o perdão? — O velho perguntou como alguém que aciona uma armadilha, capturando a curiosidade de Caio.
— Eu não sei, nunca vi um robô violento. Acho que robôs agem de forma lógica, e o perdão não é uma coisa que podemos assumir como lógica. E sem emoção, como os robôs são, quem garante que aquele atendente ou o robô serviçal que o senhor conheceu, não iriam retaliar de forma fria e imediata? Eles são mais fortes. — Caio respondeu e seu olhar se fixou nas juntas mecânicas e adereços pontudos que o atendente tinha, pensando em como a mente positrônica poderia dar novos e violentos usos a eles.
— Mas se olharmos por essa perspectiva, a violência também não parece muito lógica. — Argumentou calmamente o senhor. — Não acha que, justamente por serem mais fortes, como disse, seria ilógico retaliar uma ameaça inexistente? Se não possuem emoções, logo não haveria um ego a ser ferido ou magoado, tornando qualquer vingança um ato ilógico. — O senhor era perspicaz e deixava Caio absorvido e curioso. De longe, este estava sendo o encontro casual mais interessante que já tivera. Gostaria de perguntar sua profissão, já que não era cientista, porém temia ser rude ou talvez que a natureza comum de seu trabalho pudesse esfriar a conversa.
— Do jeito que o senhor fala, a primeira lei parece irrelevante — disse Caio, sorrindo de nervoso. Até mesmo ele sabia que a base da relação entre a sociedade e os robôs estava na eficácia das três leis e, principalmente, na primeira lei. Contudo, a aura transgressora daquela conversa afastava qualquer pensamento prudente.
— Não, ela serve a um propósito, resta a nós tentarmos deduzir qual. — O senhor parou por um momento, pensando nas próximas palavras. Estranhamente, algo nas feições dele parecia familiar a Caio. — Seria, então, o verdadeiro propósito da lei proteger a humanidade evitando que os mecanoides façam aos humanos exatamente o que é feito com eles? — A pergunta do senhor, dita de forma trivial, pegou Caio de surpresa, levando-o a refletir sobre os robôs de forma diferente, e um frio correu por sua espinha.
— Isso se acreditarmos que eles pensam como nós... — disse ao senhor, dando uma pequena pausa. Tentando resgatar na memória alguma informação. — Até hoje não se sabe se é real de fato ou uma boa emulação.
— O que seria um mecanoide que pensa como um humano, para você? — Perguntou o senhor com um olhar atento.
— Que saísse do padrão. Os atendentes variam um pouco, de acordo com a adaptação da programação, mas agem de forma esperada de um atendente, o mesmo para qualquer robô de cada tipo. Se pensassem como nós, haveria uma maior diversidade de robôs. — respondeu Caio, um pouco desconsertado.
— É um ponto interessante, meu jovem. Mas como são chamados os mecanoides que fogem do padrão? Defeituosos, e o que é feito dos defeituosos?
— São incinerados... — Respondeu Caio num sussurro, de alguma forma soava perigoso todo aquele pensamento. — Não está insinuando que...
— Não estou insinuando nada, mas não deixa de ser curioso que humanos também possuem padrões de comportamento, mas quem destoa pode ser um louco ou um gênio. No entanto, mecanoides não podem possuir gênios nem loucos. É o padrão ou a destruição, permanecendo em um estado de limbo, obscuro, uma dúvida que permanece sem resposta. — Caio estava espantado com o que ouvia, lembrou-se de que havia existido uma tentativa de ativismo pró-mecanoide no passado. Teria este senhor sido um deles?
— Mas a resposta dessa questão só daria para saber com um robô sem as leis e eu é que não quero tentar a sorte. Mas é bom para queimar a cabeça um pouco. — Caio riu para afastar o clima pesado que sentia com aquela conversa. — Louvadas sejam as mentes por trás das três leis. — Concluiu.
— É... eles fizeram tudo bem amarrado. — Pontuou o velho e ambos se detiveram por alguns minutos, apenas pensando e observando o atendente em seu trabalho sem fim. Quantos já não haviam feito parecido com o rude jovem de antes e agora recebiam gentilmente seus pedidos? Quanto de passado se escondia no doce, “Volte sempre”, proferido pela gentil e metalizada voz? O senhor, então, tratou de se levantar.
— Tenho que ir, meu jovem, foi uma boa conversa. Mas, se não se importa, posso deixar minha opinião pessoal sobre a primeira lei? — O tom gentil trazia um conforto, Caio tinha certeza de que aquele senhor deveria ter sido um professor.
— Claro! — respondeu Caio despreocupadamente.
— Penso que as pessoas por detrás da lei, a humanidade, na verdade, olha para sua criação e teme que os mecanoides pensem não diferente, mas de forma fiel demais à de seus criadores. Portanto, o verdadeiro propósito da primeira lei é proteger a humanidade de si mesma. — A fala do gentil senhor foi como um baque surdo, uma imagem que, marcada em sua mente, não poderia mais ser apagada.
— E-eu acho que vou ter muito em que pensar, principalmente em como eu trato os robôs. — Caio deu um sorriso amarelo, levantando-se para cumprimentá-lo. — Aliás, meu nome é...
— Caio, eu sei, foi um prazer revê-lo. — O velho observou por alguns segundos a feição confusa do homem e seguiu seu caminho. Caio sentou-se pesado no banco enquanto voltava a sua atenção para a lanchonete. O mesmo jovem de mais cedo recebia seu refrigerante do atendente com a mesma educação de sempre, contudo não o agrediu. Ele encarou a cena e seus olhos se encontraram com os olhos do atendente mecânico, ele engoliu em seco enquanto o AT2099 fazia um gentil cumprimento.
Fim.